A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Leon Frejda Szklarowsky1

 

O homem deve pensar, pode divergir, mas antes de tudo deve ser tolerante. Das idéias, nem sempre convergentes, brota a imensa variedade de pensamentos que norteiam a humanidade e lhe abrem o caminho da verdade.

 

A vida é o bem mais precioso, mas a vida sem liberdade não tem qualquer significado, nem dignidade.        

 

O homem distingue-se dos demais seres do universo, pela sua capacidade inata de transformar a natureza e de criar bens culturais. Todavia, a criação exige liberdade absoluta e é incompatível com qualquer tipo de controle ou constrição, seja qual for o nome que se lhe dê. 

 

O artista, o escritor, o jornalista, o cientista, o poeta, o artífice da palavra, o artesão ou o ourives da imaginação e da inteligência, o arquiteto do diálogo, de invenções, de fatos, teses e, porque não, de novos caminhos, navegando pelas galáxias da imaginação, criam um mundo, que era só deles, mas passa a pertencer a toda humanidade. É o patrimônio de todos.

Também o magistrado, no seu nobre mister de distribuir justiça a quem dele necessite, quando sentencia e escolhe, entre várias alternativas, ou o Ministério Público, na sua árdua função de fiscal da lei, só podem fazê-lo com absoluta independência, se libertos de qualquer amarra, por mais sutil que seja. De controle, nem pensar.

 

A divisão de poderes, independentes, coordenados e harmônicos, é uma conquista histórica do povo, que pessoa nenhuma tem o direito de conspurcar, porque não pertence a ninguém em particular, mas a todos, indistintamente. Não se espelhe em modelos alienígenas, espúrios e malfazejos, que nada têm a ver com nossa experiência e modo de vida.

 

Se há oportunistas, servis, venais, corruptos, safados, criminosos, que sejam punidos rigorosamente, todavia, não se generalize, sob pena de cometer-se a mais cruel das injustiças e fazer ruir o sagrado pilar de proteção dos mais fracos e dos injustiçados. 

 

Essas atividades, por sua natureza singular, não se confundem com as demais que permitem regulamentação e não se opõem a esta.  

         

Desde as mais antigas civilizações, o ser humano sempre procurou desprender-se das masmorras fétidas que o prendiam, para dar vazão a sua inata capacidade de construir e gravar, para a eternidade, seus feitos.

 

Nos momentos de extrema gravidade, quando a liberdade e a dignidade, estão em jogo e parecem esmagados pelas sujas botas de guerreiros insanos e tiranos sanguinários, o homem é capaz de romper os grilhões e criar obras imorredouras, que jamais se apagarão, servindo de exemplo para as gerações, dignificando o ser humano.

 

Os filósofos gregos, os escritores, que viam na fábula, a maneira delicada, sutil e séria de exprimir o sentimento de liberdade e atacar os ditadores; os cientistas, os poetas de todos os tempos, driblavam a escuridão que os envolviam, e, hoje mais do que nunca, notabilizam-se pela garra e vontade indômita de não permitir que se lhes arranque o mais precioso dos bens: a liberdade, visando atingir a plenitude da perfeição e a comunhão com o divino. Custe o que custar.          

 

Vivem-se situações indignas e perversas que se pensavam sepultadas para sempre, nas cinzas do passado, narradas com gênio e arte por Orwell, na revolução dos bichos. Seu mundo está mais presente do que nunca! Aqui e acolá. O que parecia fruto de sua fértil e genial imaginação é o retrato fiel da sociedade humana, despontando para a irracionalidade. 

 

Os animais, liderados por alguns porcos “muito vivos”, que se revelaram exímios demagogos, expulsam Jones, o dono da fazenda que os abrigava, onde eram explorados e maltratados, impiedosamente. Pretendiam, então, criar um Estado igualitário e justo onde reinaria a felicidade. Fizeram a revolução. Assumiram o poder. Seriam diferentes dos seres humanos. Não admitiriam, jamais, a mentira e a torpe escravidão. Todos estavam satisfeitos, felizes. Enfim, poderiam usufruir de todos os bens que a natureza prodigamente lhes oferecia, sem discriminação, inclusive a liberdade.  

       

Não obstante, também os bichos sofrem do mesmo mal da humanidade. E as disputas internas, a inveja, a exploração do bicho pelo bicho destroem o sonho e a aspiração de um mundo melhor. Ai, que saudades do que se foi!    

 

Tal qual os angustiados e revoltados animais, ao assumirem o governo de sua espécie, os humanos revolucionários, de ontem, tornaram-se os energúmenos de hoje e, como na ficção orweliana, de que “todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais que os outros”, assim também, todos os homens são iguais, mas alguns são mais iguais, espertos e aproveitadores que os outros. 

 

O ficcionista, na verdade, ao escrever esta novela, teria satirizado o paraíso soviético - terra de todos para todos, que se transformara, no mais cruel totalitarismo, somente comparável a Gêngis Khan, aos bárbaros, aos verdugos medievais, aos modernos fascistas e nazistas e aos mentirosos construtores de uma disfarçada democracia, que não passa de um carnaval de sórdidas mentiras.

 

Hoje, como  no anoitecer dos tempos idos, déspotas e fundamentalistas de todos os credos e opiniões, travestidos de homens de bem e democratas de fachada ou estadistas bem intencionados, tentam, sem pudor e descaradamente, com crueldade jamais vista, quebrar a mente daqueles que, com seu gênio e inteligência, contribuem para o esplendor da civilização e marcam rumos novos para a humana gente. 

 

Queimam-se bibliotecas inteiras, assassinam-se homens na fogueira da intolerância, extirpam-se vidas inocentes, tenta-se alquebrar os espíritos mais fracos, destroem-se estátuas milenares, tolhem-se as idéias. Amanhã, cremar-se-ão novamente os homens? Que insensatez, meu Deus! Que barbarismo! Para onde caminhamos?

 

E, no entanto, impossível é triturar com as possantes máquinas da intolerância a vontade de viver, mais forte que o infernal pesadelo do Deus do mal. Cabe, pois, à pena, e somente a ela, a missão precípua de fazer prevalecer o bem maior do ser humano: a vida digna e livre.  

 

De passagem forçada por São Paulo sem nenhum prazer, senão muita dor- ,  22/8/2004 22:20:24

 

 1- O Professor Leon Frejda Szklarowsky é advogado, subprocurador-geral da Fazenda Nacional aposentado, juiz arbitral da American Arbitration Association, Presidente do Conselho de Ética e Gestão do Superior Tribunal de Justiça Arbitral do Brasil (SP) e conselheiro e juiz arbitral da Câmara de Arbitragem da Associação Comercial do Distrito Federal, e vice-presidente do Instituto Jurídico Consulex. Acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia Brasileira de Direito Tributário e membro dos Institutos dos Advogados Brasileiros, de São Paulo e do Distrito Federal e da Associação Nacional dos Escritores. Entre suas obras jurídicas, citem-se: Responsabilidade Tributária, Execução Fiscal, Medidas Provisórias (esgotadas), Crimes de Racismo, Contratos Administrativos e Medidas Provisórias – Instrumento de Governabilidade, 2003. Em elaboração: Teoria e Prática da Arbitragem. 

 

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